Visitas

segunda-feira, 8 de junho de 2015

As esquinas de junho

Eram duas vozes numa multidão cheia de bocas.
E bastou um único olhar,
Para que uma voz sem ser ouvida reconhecesse a outra.
Prazer. Prazer é meu.
E foi assim, iniciando com os prazeres que descobriram seus timbres.
Ele rouco, grave e cigarrento.
Ela rouca também, tossindo o ontem pelas esquinas.
Ambos protestavam contra o quê mesmo?
Pouco importava.
O dólar continuaria subindo.
A tarifa não seria reduzida.
E a greve permaneceria acesa.
Tão acesa quanto a lua gelada de junho.
Mas nos espaços pisados pelos sons,
Eles já não eram dois.
Eram o Todo em forma de beijo e revolta.
Pois, ao final, todo beijo é rebelde e impune.
A violência de dentro espantava a de fora.
E foi assim, que descobriram no ardente desejo de se ver...
Uma revolução que tinha apenas começado.
Eu ainda te procuro nas esquinas daquele junho.


Precariedade

Habito o território da precariedade.
Escrevo como se enche chouriço.
Coloco o sangue fervente nas tripas de ideias frágeis.
E o tempero com a dor que apimenta antes de coagular.
Só sei ser do avesso. 
Porque é meu corpo que escolheu ser fala e ida.
Os cheiros e sabores me excitam aos berros.
Pois descubro em mim uma alma de poros abertos e analfa-aberta.
As feridas do deus, as feridas do deus...

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Entarde-Ser

Peço-te a gentileza de não entarde-Ser-es sem mim.
Pois os poentes solitários são dias de uma sentença muda.
Permita-me a companhia no vermelho-fogo da vida besta.
Quando apenas sobrevoam os insetos e as ilusões idas.
É no fim da tarde que o amor chega, mansinho...
Mineiro, pelas beiradas do dia-cansado.
Insisto em virar-me ao oeste,
Pois um por-do-sol é uma forma de arrastão...
Levando os fatos para o mundo onírico das possibilidades roubadas.
Gosto de ver o Sol sangrando como em Carmen de Bizet,
Primeiro ele se ajoelha,
Suplica perdão à noite,
Pra depois morrer atrás das nuvens-fúnebres.
Impiedosas, como sabem ser.
Não te esqueças que o crepúsculo é uma procissão do aquém,
Rumando pra um além cruel, maiúsculo.
Peço-te a gentileza de não te esqueceres das tardes-findas,
É no entarde-Ser da vida que a gente aprende a de-Ser dos sonhos...
E aprende a te-Ser o eterno,
Por meio dos lábios mais improváveis possíveis.
Todo beijo é uma forma de réquiem.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Sobre o Amor e o Acaso

O sobrenome do Amor é Acaso.
Que infelizmente rima com Ocaso, Descaso.
E talvez até Atraso.
Mas, afinal, porque pressa?
Senta um pouquinho enquanto lhe preparo um café.
Afinal, o deus gosta mesmo é da prece lenta.
Da prece com cara de gente.
Feita cachecol-de-lã-da-vó...
Pontilhada vagarosamente em tardes...
Desnudadas de tão nadas...
Amor é o que se aprende aos pouquinhos,
Nos crepúsculos,
Nas decepções,
Nos "perdi-meus-tempos".
Ele habita o território das inutilidades...
Das desnecessidades mais necessárias que existem.
Descasar não é o contrário de casar.
É permitir ao outro a incrível possibilidade de ser mais que um caso.
Amor a gente descobre nas bordas...
Nos cantos de página,
Nos momentos de bobice...
Nos fins das aulas.
Amor é prato bem passado.
E sobrevive em quem se arrisca a perder não apenas tempo.
Mas também a própria vida.
Amor é a cilada paciente do Tempo e suas surpresas.


sábado, 18 de abril de 2015

Máquina de Costura

Não se aprende poesia sem alfinetes.
Pois costurar é o primeiro passo pra ser aprender a escrever.
As ideias são tecidos crus. Inteiros.
Esticados sobre o corpo rígido do poeta-alfaiate.
Rasgar o real.
Cortar a lógica.
Desfiar o racional.
Tecer os vestidos da imaginação...
Poesia é traje de gala costurado à mão trêmula.
É roupa de missa. Justa. Impecável.
Fazer versos é forrar os botões do que não existe.
Marcar as barras do pés do invisível.
Engomar a vida de cheiro e sentido.
As ideias nuas são obscenas e interditas.
Escrevo para cobrir as vergonhas do Ser.

Afinal, é no ateliê da Palavra que aprendi fazer dos trapos da vida um desfile.

Aos desporquês

É como se o tempo acabasse sempre hoje.
Minhas decisões pra toda vida não duram mais do que horas.
Pois a vida pra mim são sempre algumas horas.
Escrevo enquanto viajo vendo o horizonte.
Ele se põe quieto, rápido e vermelho.
Ele não se justifica e, por isso,
Pode ser vermelho e dormir em paz.
Sim, eu me justifico escrevendo.
E não durmo em paz.
As palavras são minha arte de impaciência.
São meus impulsos por agoras feitos verbetes fugitivos.
Nunca faço poesia de um dia pro outro.
Escrevo a sangue quente.
Com raiva.
Com medo.
Com paixão.
Ou tudo junto, feito febre e ferida.
Mas é quando o sangue esfria que sinto o tédio.
E não há nada mais cruel que o tédio de se saber um “eu” que permanece.
Sei que vigiam o que escrevo.
Buscam entre as vírgulas acentos pra assentarem seus desporquês.
E acendem o fogo das calúnias com a lenha da mediocridade.
Não me importo.
Recolho as brasas,
Derreto minhas ordens.
E aqueço a solidão das noites imunes às lágrimas,
Com as faíscas inocentes e caóticas como devem ser.
Minha poesia é tatuada.
Ela me perfura antes de existir.
Vivo em trânsito para não viver em transe.
Eu não temo o fim. Eu o escolho como percurso.
Eu o bebo nas linhas tortas do inesperado.
Pecado mesmo é virar pretérito-mais-que-perfeito.
Como toco esquecido de uma árvore ida.
Ao qual a única esperança são os fungos.

O poeta, incurável, só sabe mesmo é brotar em podas.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Fotos, fatos e idas

Sobre a mesa um par de fotos.
Nenhum fato.
E uma multidão de olhos fúteis.
E tristes.
O amor descerrou a fita.
E declarou inaugurada uma nova travessia.
Partir é uma necessidade.
Há tantos retratos a serem revelados ainda...
Hoje cansei da música da mesma nota.
Pequena é a distância entre o medo e o ódio.
Esculpir-se e desculpar-se numa procissão invisível.
Recolher-se e colher-se numa plantação de inverdades.
Amar-se e não armar-se.
Render-se para não vender-se.
Escolher as surpresas imprevistas.
Abandonar-se ao que vem,
Sem mágoa do que se foi.
E sempre alegre pelo que vem.
Estratégia de idos, mas não vencidos.
O tempo de (r)ir é chegado.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Pelo Avesso

Os púlpitos mais falantes são os corpos.
Neles, uma pregação silenciosa é destilada.
Lenta.
Suspeita
E, por isso, autêntica.
Nos beijos mais teimosos, as revoluções impossíveis.
Nos abraços, o desembaraço da bur(r)ocracia.
As pálpebras são as vírgulas do rosto,
Porque ligam os olhares como apostos fúteis.
O corpo não usa palavras pra vestir as ideias.
Ele se despe para i-nú-tilizar os conceitos.
Toda pele é uma forma de aspas.
E toda boca um travessão.
A política é arte de governar o silêncio dos corpos.
Para reduzi-los aos tristes lugares cativos de sempre.
O amor faz mesmo é inverter os corpos...
Pois é pelo avesso que o deus quis habitar o mundo.


sábado, 24 de janeiro de 2015

Descomportamento

Eu me declaro viciado.
E com olhos vermelhos de dar medo.
E advirto aos distantes que não se aproximem.
Eu embriago as palavras
E as convido a perderem a compostura.
A minha compulsão engole as letras escondidas.
E se revela nos beijos mais profanos possíveis.
Todos os lábios do mundo se tornaram sagrados,
Porque o divino quis ser traído em forma de beijo humano.
Para mostrar o beijo criador-soprador do Universo.
Eu não temo me inebriar de torpes palavras.
Elas são absorvidas pelo sangue e viram movimento.
Eu temo o entorpecimento do silêncio.
Que, calado, imobiliza pelas linhas ocultas do medo.
Sinto em mim o desafio de uma história percorrendo às pressas o mundo.
Sinto uma paixão por tudo aquilo que respira.
Sou viciado em aspirar o humano dos pés à cabeça.
Pois acredito no deus que quis ser expiro antes de espirro.
Enquanto a mentira sobrevive nos sussurros,
A Verdade se escreve de mãos dadas.
Eu trafico poesia pelas esquinas da vida besta.
Porque é na ilegalidade que arte subsiste.
Também com raiva se escreve.
Descomportamento estético da existência.



domingo, 4 de janeiro de 2015

Tempo Pouco e Suficiente

Não deixe a poesia passar do ponto.
Ela precisa ser comida crua, sem tempero.
Tocar as palavras depois de servidas,
É sentir saudades de um futuro que nunca chega,
Ou de um passado que nunca existiu.
Talvez os poetas não possam se tocar nunca.
Porque é no "quase" que se inspiram.
E mesmo assim deveriam...
Inatingível é o sentimento feito palavra e ponto.
Se a Carne falasse seria gaga.
Um minúsculo minuto é suficiente e pouco ao mesmo tempo.
Ao invés de comê-lo, por medo da digestão,
Deixamos que ele nos mastigue em pausas.
O Amor quis pendurar-se nos galhos humanos,
Ainda que frágeis,
Pois descobriu neles o fruto em forma de broto e ferida.
Não escreva cartas para seu amor...
Escreva receitas de bolos de fubá sem cobertura.
Afinal, os melhores beijos são esfarinhados.
Bebamos os poemas em goles únicos,
Pois o pouco tempo é a eternidade feita soluço.
Poesia é Menina que ainda Existe.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Cru

O amor instaura a maior solidão possível.
Na distância muda entre o ser e o partir,
A crueldade fria do estranhamento.
De perto e desperto, todo amor é imoral,
Ilógico, não possui concordância nenhuma.
Não há premissas ou conclusões possíveis.
Todo beijo é uma mordida na palavra antes de ser cozida.
E, por isso, todo beijo é cru.
No amor, as palavras são completamente desnecessárias.
E absurdamente invasoras.
A planta devorada pela lagarta se transformou em cor.
Em cada borboleta, a digestão lenta e letal do Ser.
Permitir-se devorar pelo futuro.
Não temer perder as folhas.
Acreditar nas chuvas tardias.
Expectorar as expectativas.
Pisar a terra úmida do presente,
Para encharcar o passado de razões.
E desacreditar de qualquer futuro que não seja feito de hojes.
A paixão viral e verdadeira transpira pelos poros dos acasos.
Mas é no amor, que a finitude mais cruel se declama.
Não, um amor nunca termina quando acaba.
O deus quis morrer cru.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Umbigo

Minha metafísica se dá na umbicalidade do mundo. 
Onde o Ser se amarra ao Grito, ao Choro, 
Ao Partir-Parir de toda existência. 
Viver é destorcer-se.
Primeiro a gente não nasce.
Primeiro a gente se enrola.
E vai deslombrigando aos poucos.
O umbigo insiste em ser o nó encurralado da vida.
O extremo visceral desabilitado.
Penso um mundo de pessoas sem umbigos.
Sem memórias das amarras passadas.
Penso um mundo feito de laços ao invés de nós.
Laços lembram fitas e presentes.
Nós só se desenrolam mesmo é na unha.
O enrolamento "nós"-tálgico das decisões é pecado mortal, sem remissão.
O Ser prefere permanecer teoria porque teme o fu(tu)ro enfiado em seu ventre.
O ventríloquo não fala pela própria boca,
Ele é mudo e tagarela porque sabe encenar.
E, por isso, esqueceu de ter umbigos, 
Como também esqueceu de amar.
Há dias em que qualquer palavra é um palavrão
E qualquer vírgula uma ofensa em caixa-alta.
Os dois pontos são o respiro da ideia.
Meu avô me ensinou a morrer com o umbigo pra fora.
E que também as hérnias educam.
Entre um bingo e um umbigo está a distância de uma história. 



segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Par de pernas

Minha primeira eleição foi em 1992.
Eu tinha apenas 13.
Era o tempo em que a oitava série e o ginásio se equivaliam.
A urna estava à frente de todos.
A decisão: escolher o par de pernas mais bonito da escola.
Desde aquele tempo minhas escolhas eram atravessadas pela dúvida.
Por que um voto se reduziria a uma perna?
Ou a um par delas?
Uma pessoa, um voto e duas pernas.
"Qui a la choix a la croix"
Foi ali minha primeira aula sobre a relação entre o público e o púbico.
A dificuldade, todavia, estava na direção do meu olhar...
Que insistente, preferia um corpo a um par de pernas,
Por mais bonitas que fossem.
Andar sem ver é a pior cegueira que existe.
E assim, meu primeiro voto foi nulo.
Recusei reduzir uma moça ao seus músculos e articulações.
E descobri, no universo das possibilidades, a infinitude das decisões.
Corrupção é tirar do outro a possibilidade de ser vários.
É segurar numa mão o que insiste em escorrer...
Duas pernas não me representariam jamais!
Em cada eleição, sinto-me remetido àquele ano
Que, por coincidência, também recusou um presidente eleito.
Em cada voto, uma re-volta.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Fole

O deus não quis ser feito,
Quis ser fala, filho e fole.
Onde o sopro se fez brasa
E palavra, vício.
Não sei ser um ainda,
Mas tenho aprendido a não ser mais tantos.
Chega um dia em que os heterônimos tiram férias.
E resta a Necessidade, deusa severa,
Única.
O Amor perdeu as asas para o Tempo.
E se instalou no chão mais duro (e mais belo) possível.
A distância faz a fala ser beijo,
E o silêncio, lágrimas.
Onde a carne respira, o deus abençoa a existência,
Mas é no cheiro enviado
Que eu o sinto mais próximo.
Tudo começou no barro.
Insuflado pelas narinas...
Eu desejo amanhecer vendo a Verdade com Olhos Tapados.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Entalados e Enlatados

Dalí, Salvador.
Uma gata ficou gorda.
Uma papagaia sem asas dando aulas de política.
Um cachorro peludo, mas pelado, quieto.
Meu sonho, essa noite, foi uma pintura surrealista.
Empoleirados, todos não haviam conseguido ir embora.
Pois o transporte público os retivera.
O Brasil é o lugar onde o público é púlpito e púbico ao mesmo tempo.
Onde o Governo e o Estado são siameses,
O resultado é um incesto social.
Os gatos engordam onde os ratos são presas fáceis.
Não acredito na democracia representativa brasileira.
Declaro a total inutilidade do sistema político-eleitoral de nosso país,
Que permite milhões em tetas-subsídios para eventos alienantes
E mata à míngua uma multidão confiante e que ainda voa.
Uma pessoa entalada-enlatada na estação de trem,
Sente em si o peso absurdo da imbecilidade de seus representantes.
Uma pessoa largada no corredor de hospital,
Padece da enfermidade generalizada de uma nação muda.
Não é apenas um reservatório que está secando.
É a esperança.
Cruzar os braços é uma necessidade
Para que a boca-bico se abra
E asas cresçam.