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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Par de pernas

Minha primeira eleição foi em 1992.
Eu tinha apenas 13.
Era o tempo em que a oitava série e o ginásio se equivaliam.
A urna estava à frente de todos.
A decisão: escolher o par de pernas mais bonito da escola.
Desde aquele tempo minhas escolhas eram atravessadas pela dúvida.
Por que um voto se reduziria a uma perna?
Ou a um par delas?
Uma pessoa, um voto e duas pernas.
"Qui a la choix a la croix"
Foi ali minha primeira aula sobre a relação entre o público e o púbico.
A dificuldade, todavia, estava na direção do meu olhar...
Que insistente, preferia um corpo a um par de pernas,
Por mais bonitas que fossem.
Andar sem ver é a pior cegueira que existe.
E assim, meu primeiro voto foi nulo.
Recusei reduzir uma moça ao seus músculos e articulações.
E descobri, no universo das possibilidades, a infinitude das decisões.
Corrupção é tirar do outro a possibilidade de ser vários.
É segurar numa mão o que insiste em escorrer...
Duas pernas não me representariam jamais!
Em cada eleição, sinto-me remetido àquele ano
Que, por coincidência, também recusou um presidente eleito.
Em cada voto, uma re-volta.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Fole

O deus não quis ser feito,
Quis ser fala, filho e fole.
Onde o sopro se fez brasa
E palavra, vício.
Não sei ser um ainda,
Mas tenho aprendido a não ser mais tantos.
Chega um dia em que os heterônimos tiram férias.
E resta a Necessidade, deusa severa,
Única.
O Amor perdeu as asas para o Tempo.
E se instalou no chão mais duro (e mais belo) possível.
A distância faz a fala ser beijo,
E o silêncio, lágrimas.
Onde a carne respira, o deus abençoa a existência,
Mas é no cheiro enviado
Que eu o sinto mais próximo.
Tudo começou no barro.
Insuflado pelas narinas...
Eu desejo amanhecer vendo a Verdade com Olhos Tapados.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Entalados e Enlatados

Dalí, Salvador.
Uma gata ficou gorda.
Uma papagaia sem asas dando aulas de política.
Um cachorro peludo, mas pelado, quieto.
Meu sonho, essa noite, foi uma pintura surrealista.
Empoleirados, todos não haviam conseguido ir embora.
Pois o transporte público os retivera.
O Brasil é o lugar onde o público é púlpito e púbico ao mesmo tempo.
Onde o Governo e o Estado são siameses,
O resultado é um incesto social.
Os gatos engordam onde os ratos são presas fáceis.
Não acredito na democracia representativa brasileira.
Declaro a total inutilidade do sistema político-eleitoral de nosso país,
Que permite milhões em tetas-subsídios para eventos alienantes
E mata à míngua uma multidão confiante e que ainda voa.
Uma pessoa entalada-enlatada na estação de trem,
Sente em si o peso absurdo da imbecilidade de seus representantes.
Uma pessoa largada no corredor de hospital,
Padece da enfermidade generalizada de uma nação muda.
Não é apenas um reservatório que está secando.
É a esperança.
Cruzar os braços é uma necessidade
Para que a boca-bico se abra
E asas cresçam.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Mu-dança

Casa é o lugar de onde se saiu.
Percorrer os espaços táteis-tetos;
Destetar-se.
O deus preferiu andar a permane-Ser.
Morar é cobrar juros de si mesmo.
Ter endereço é ficar refém de envelopes impressos
Todos com o mesmo nome.
Todos com a mesma cor.
Todos com cara de todos.
Bom mesmo era o tempo em que as cartinhas eram de amor.
E a gente sabia o nome do carteiro vestido de amarelo-sol-seleção.
Decidir não-morar-se é decidir namorar o percurso.
É abandonar os andares e preferir o andar.
Toda vez que minha vida se resume a algumas caixas de papelão,
Sonho com o dia em que não terei mais nada a carregar,
Sonho com o passado voando pela janela,
Como pássaros criados,
Livres. Saciados.
Mudar é uma necessidade para o futuro sair do lugar.
O passado cansou de pagar aluguel.
Hoje a lua está tão cheia que pretendo alugá-la por uma temporada.
A mu-dança é sempre no dia de hoje.
Mudar também emudece.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Sobre Vírgulas

Eu não faço poesia.
Faço é futrica.
Faço é ser cupido.
Eu coloco palavras solitárias pra namorarem.
E permito com que se beijem em público.
O verso é uma declaração de amor,
Mas a paixão acontece mesmo é no subterrâneo da prosa.
Escrever é uma forma de permane-Ser.
É sobrevivência pra quem já predicou-se em sujeito oculto.
Lembro-me de que fui advertido por só escrever à lápis.
Mas, fazer o quê?
A possibilidade de ser apagado é a minha maior crença.
Só quem é lido é apagado.
O Fim é a minha maior fonte de inspiração.
Eu creio no Ser que quis se relacionar antes de existir,
No Amor não-dito, feito mais de mudez do que de palavras.
Mas eu creio sobretudo nas vírgulas,
Benditos pontos com rabinhos, indicadores de eternidade...
Uma vírgula é um ponto soprado.
É a insistência de ter sempre algo a ser escrito,
Mesmo quando toda palavra investir em desistir.
No Fim, quando o Ponto Final for a única certeza,
Olharemos para trás
E seremos julgados pelas vírgulas que deixamos
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sexta-feira, 11 de abril de 2014

Contra a Paz

A paz é privilégio dos idos...
Não me ofereçam uma paz feita sossego e leite com biscoitos,
Não me entupam de calmaria
Pois sem vento,
Não há barco que navegue.
Escolha o amor das turbulências
O amor dos desvios,
Beba-o efervescendo.
A guerra é a mãe de todas as coisas.
Das boas.
Das más.
No conflito, a única vida possível...
O sangue que flui é o mesmo que entope as veias.
Entre o amor e a paz existe um abismo intransponível.


quinta-feira, 27 de março de 2014

Desnecessidades e Feiura

O Absoluto instaura a maior solidão possível.
A identidade é escrava no reino da diferença.
Pensar é coisa que nasce no oposto.
Divergir e divertir apontam para a mesma direção.
Já a Beleza não,
Ela é a desnecessidade Absoluta.
E, por isso, o Belo é ab-surdamente solitário.
Gosto de não ter que explicar as coisas.
Mas, sobretudo, gosto das coisas que não se explicam.
E detesto que me expliquem as coisas difíceis e misteriosas.
Explicar o Mistério é um assassinato seguido de suicídio.
Hoje vi uma mulher conversando com um cão.
Ambos estavam encoleirados.
E permaneciam alheios aos olhares de julgamento.
Impossível não é se comunicar com um ser que late,
Impossível é descobrir a Verdade entre os latidos dos que insistem em ser surdos.
E preferem um Universo feito de degraus a serem galgados
E méritos a serem conquistados.
O deus-feito-morte-e-fim fez com que a maior feiura possível
Se transformasse no Amor mais Belo...
Ter Razão é desnecessário quando se ama.
E o amor é Belo porque é o privilégio da feiura.
Amor se experimenta no Limite.




terça-feira, 18 de março de 2014

O Outro Molhado

A diferença é a única salvação possível.
Tudo começou quando o Mesmo se tornou Outro.
E quando o olhado quis ser Molhado.
Bom mesmo é ver uma criança tocando o mar pela primeira vez...
As pisadas cautelosas, minúsculas...
A canela submergindo nas águas infinitas.
Cada ser humano é um oceano a ser adentrado.
Vagarosamente.
Nunca toques no azul de uma pessoa se não tiver disposto a se afogar...
Outro é tudo aquilo que nunca sabemos se dá pé ou não...
Tal como o mar misterioso,
Que guarda seus tesouros submersos,
Cada pessoa adentrada só se revela no mergulho.
Ninguém se molha ficando apenas na margem...
A praia é o refúgio dos covardes.
O Outro só se mostra aos que têm fôlego.
E encharcar-se da Diferença deveria ser a única ética possível.
Todo ser humano é líquido, quer o saiba ou não...
Evaporar é a pena dos reticentes.
Felizes são os peixes,
Que de tão afogados,
Aprenderam a engolir água para existir.
A Vida bebeu o Amor até a última gota.

quarta-feira, 12 de março de 2014

O Beijo e o Respiro

Eu creio nos corpos plásticos
Feitos de flexibilidade e movimento...
E que se derretem.
Eu creio na humanidade desejante,
Na ousadia de quem abusa do tempo
E insiste.
Os amores emudecidos não mudam.
Os beijos guardados, 
Os beijos preguiçosos,
Os beijos tímidos, sem força de saírem da boca,
Os beijos curiosos,
São esses que deflagram o coração na ponta dos lábios.
O Amor, quando beijado no rosto, foi traído...
O Amor, quando beijado nos pés, foi lavado...
O Amor, quando erguido, salvou beijando.
O Amor, quando beijou-soprou, fez de todo ser apaixonado um vivente.
E decretou:
Cheirar o ouvido alheio também é uma declaração!
O coração antes de pulsar, aspira.
O último expiro do Amor foi o respirar do Universo.

terça-feira, 11 de março de 2014

Formigas e Partidas

Havia uma multidão de formigas no teclado do meu computador.
Elas eram muitas.
E, como numa saída de metrô, 
Foram saindo apressadas do território das teclas.
Sim, as formigas construíram seu ninho no interior das palavras não ditas.
Escrever é assim: trabalhar como formiga.
Juntar o alimento da poesia nos dias de verão...
Pra que no inverno das letras, as palavras aqueçam como um ninho.
Um poema só tem rima quando é fungado...
Escrever é desovar as sobras...
O amor não está nas malas colocadas no ônibus...
No pranto com sabor de passado e repetição...
O amor está  na possibilidade de ser viagem e estrada...
No olhar do outro lado da rua.
Ama verdadeiramente quem sabe ver partir tudo aquilo que parte.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O Vidro atravessado

Era o que se podia chamar: "Entre".
Verbo e condição ao mesmo tempo.
Assim um vidro decretou a maior distância do mundo.
O tocável se tornou apenas visível
Enquanto o cheirável continuava impregnado na saudade.
Entrar é verbo que se conjuga sempre no imperativo.
Já "entre" é a marca do tempo que, teimoso, insiste em existir.
O vidro já foi feito de passado e areia,
De caronas,
De promessas e andanças-desérticas,
Agora era só frio, e mais nada.
Acabo de descobrir o significado de vidrado!
Condição daquele que não tira os olhos do vidro.
Transparente é o coração de quem escolhe paredes feitas de vitrais ao invés de pedras...
Amar é construir um telhado de vidro a ser bombardeado...
E ferir-se nos estilhaços dos julgamentos alheios.
Dizem por aí que as almas atravessam paredes...
Eu, que tenho alma feita de carne,
Só consigo mesmo crer que Vida
É tudo aquilo que, de tão permeável,
Permite ser atravessada pelo Outro.
Amar é juntar os cacos.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Ida

A solidão não é solitária.
Ela é habitada por uma multidão de propostas.
Das quais as respostas insistem em ser múltiplas.
Há apenas um Sol-sozinho nesse universo feito de planetas apagados.
Que de tanto girar ficaram tontos e vivos.
A maior distância do mundo não se instaura da dúvida.
Mas nas certezas.
A dúvida faz tudo nascer.
A certeza é submersa, cálida e traiçoeira.
Amor é pacto entre pessoas que de tanto duvidarem, acreditam.
Ontem vi uma pessoa sem nenhuma dúvida.
Ela estava saciada.
E, consequentemente, triste.
O maior motivo é não ter motivo algum.
E ir.
Os porquês não chegam nunca.
E jamais serão necessários
Para os que fazem do percurso a meta
E dos sentidos o sentido!
Partida rima com ida, lida, subida, atrevida, e vida.
Ser é coisa que se aprende no caminho.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Um

Somos muitos!
Foi essa a resposta do demônio Legião ao deus.
Diabólica é pretensão de ser vários sem antes ser Um.
O deus-sendo-três-em-um quis ser Único antes de ser Tudo.
Por isso, o Amor só existe Único.
É verbo que se conjuga na permanência.
Para "to be" é preciso Ser e Estar.
O coração indiviso só sabe ser in-divisa.
Ele vive na fronteira dos que esperam dele e da Esperança,
Que são absurdamente incompatíveis.
O dia-bo é a cerca erguida na alma humana.
É a necessidade do pulo,
Combinada ao esquecimento da semente.
Ser sentido presente na distância,
Ser lugar sem poder oferecer um teto,
Ser um sabor no alimento congelado,
Ser saudade traduzida em agoras feitos sempres.
O desejo de ser Um é maior santidade possível.
Aos invés de ser vários, ser outros.
Amor é a janela aberta de futuro,
Refrescando uma alma sufocada de passado.
O coração, antes de expirar,
Respira.


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Transferir-se

O deus quis sair das tendas
E pediu uma casa ao ser humano.
Ele se transferiu!
E foi assim que o ser feito passagem
Escolheu a permanência ao transitório.
Viver é comer poeira
E perambular no deserto do Outro.
Apaixonar-se é declarar-se em êxodo...
É descobrir no rosto que interpela
Uma promessa escrita no passado...
Mas relida duas vidas depois.
O amor começou numa carona.
E esperou anos pra percorrer a estrada inevitável do encontro.
A mesma estrada que alimenta a saudade
Possibilita o encontro.
A casa se constrói no Acaso...
Preferir-se é ferir-se.
Amar é transferir-se!

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Distância

Ela diz tudo.
Nasceu da obrigação humana em ser racional.
Não que ele assim o fosse,
Mas a angústia evasiva do tempo não lhe permitiu ser outra coisa.
A distância é a irracionalidade do afeto.
Ela conjuga o verbo desabraçar em silêncio.
Vi pessoas distanciadas pelo poder,
Vi pessoas distanciadas pela moral,
Vi pessoas distanciadas pelo medo,
Mas sobretudo vi pessoas que de tanto se amarem,
Só existem mesmo longe uma da outra.
Estar perto também tem um quê de mortalidade.
Distante é apenas uma questão de perspectiva.
A Lua é infinitamente distante da Terra,
E ainda assim a alcançamos
Com foguetes frios
E astronautas asfixiados.
Mas é apenas na poesia dos apaixonados
Que a Lua pode ser tocada com um simples olhar.
Amor é aquilo que nasce na proximidade,
Mas se prova de longe.
Não se entrega o pão do café da manhã pra quem acorda a mil quilometro de distância.
Mas também as refeições congeladas conservam seu sabor...
A ilusão desespera.
O Amor Espera.